(Imagem: Reprodução/Google Arts and Culture)

Dialeto caipira do interior paulista está caindo em desuso, aponta pesquisa

Além do sotaque caipira com a pronúncia do “erre mais rasgado”, moradores de cidades do interior paulista, localizadas próximas ao Rio Tietê, têm um vocabulário peculiar. O terçol na pálpebra do olho pode ser viuvinha; a garganta, goela; o quadril de uma mulher tem a designação de anca ou “os quartos”. Uma pesquisa feita na USP mostrou que, embora ainda seja marcante, o dialeto caipira está caindo em desuso principalmente entre a população mais jovem e as mulheres. Os idosos são os guardiões do sotaque acaipirado.

Em entrevista ao Jornal da USP, a autora da pesquisa, Lívia Carolina Baenas Barizon, explica que o Rio Anhembi (atual Rio Tietê), por ter seu fluxo d´água correndo sentido continente, foi fundamental para a difusão da língua portuguesa e o dialeto caipira durante o início do século XVIII. Segundo a pesquisadora, “o dialeto caipira teria surgido nos núcleos familiares das cidades paulistas a partir do século XVIII e sido levado pelas monções para dentro do território paulista. Em sua caminhada rumo ao Mato Grosso para desbravar terras e retirar ouro, os bandeirantes saíam da capital paulista e seguiam a rota do Rio Tietê”, diz.

Para obter os dados para a tese defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Lívia entrevistou moradores das cidades de Santana do Parnaíba, Itu, Sorocaba, Porto Feliz, Pirapora do Bom Jesus, Capivari, Piracicaba e Tietê. O contato inicial da pesquisadora com os moradores – homens e mulheres de três faixas etárias – jovens: de 18 a 25 anos; adultos: de 36 a 55 anos; e idosos: acima de 60 anos – se deu por meio de um bate-papo informal e apresentação da pesquisa, seguido de aplicação de questionário. De posse de desenhos, era apontada aos entrevistados alguma região do corpo humano no papel e solicitado a eles que dissessem o nome pelo qual conheciam essa parte do corpo ou se havia alguma outra designação.

Das 85 unidades lexicais selecionadas para análise (barba, boca, cabeça, calcanhar, cotovelo, cuspe, dedo, dentadura, goela, quadril, anca, cadeiras, sovaco, axilas, terçol, umbigo, útero, orelha, junta, articulação, dentre outras) retiradas do Atlas e comparadas com as falas dos moradores, 82,4% foram convergentes.

Houve um predomínio maior do dialeto caipira entre os mais idosos, o que, segundo a pesquisadora, poderia estar associado à menor influencia das mídias digitais nessa faixa etária. Palavras como “pilão”, “juízo” e “dente do juízo” para se referirem aos dentes, ou “lombo” significando costas, “beiço” no lugar de lábios, “bucho” para barriga, “pestana” no lugar de sobrancelha, “capela do olho” no lugar de pálpebra, “curanchim” no lugar de cóccix, são alguns exemplos de expressões mais recorrentes entre os idosos.

Entre os mais jovens, foi constatado um porcentual de 58% de frequência relativa à tendência ao desuso das 85 lexias analisadas e 42% de tendência à manutenção. “Os jovens tendem a usar lexias mais próximas à realidade deles por terem maior escolaridade, pelo avanço tecnológico, pela influência das redes sociais, dentre outras inovações”. As mulheres também lideraram a tendência ao desuso (45%) e tendência à manutenção (23%). Já os homens apresentaram 18% de frequência de tendência ao desuso e 8% de tendência à manutenção.

A tese “O léxico caipira: tesouro da língua às margens do Anhembi” teve a orientação do professor Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH, e co-orientação da professora Maria do Socorro Vieira Coelho, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

“A pesquisa da Lívia tem grande importância para os estudos do português falado em São Paulo, na região de cultura caipira, porque permite compreender os processos de variação e mudança da variedade que se expandiu desta região para outras partes do Sudeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil, pelos caminhos das águas do Rio Tietê, antigo Anhembi, dentre outras vias fluviais e terrestres, a partir do século dezessete pelas ações das bandeiras e monções”, conclui Almeida.

Com informações de Ivanir Ferreira | Jornal da Usp

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